Sejam Bem-Vindos!

O Botequim é um espaço democrático e opinativo sobre os mais diversos assuntos, envolvendo a sociedade brasileira e o mundo.

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quinta-feira, 12 de agosto de 2010

Espaço Ponto de Vista: MEC envia às escolas públicas livro que narra estupro


Todos os dias faço uma rápida passagem pelos principais sites de notícias para ficar ciente dos principais problemas de nossa sociedade e do mundo. Hoje, quinta-feira, uma notícia me chamou a atenção; ‘MEC envia a escolas publicas livro que narra estupro’, exposta na Folha.com. O nome do livro é ‘Teresa, que esperava as uvas’, de Monique Revillion.
Como educador, caí em reflexão a respeito do possível problema. E surgiu a grande pergunta: Há algum problema em se trabalhar com relatos de violência em livros escolares?
Eu sinceramente não li o livro e segundo os responsáveis (governo e autora), o relato de violência serve para que os alunos reflitam sobre a violência de nossa sociedade. Segundo o site, as cenas de violência estão presentes no conto "Os Primeiros que Chegaram", que narra, do ponto de vista da criminosa, um sequestro cometido por um casal. As vítimas são torturadas. Há frases como "arriou as calças dela, levantou a blusa e comeu ela duas vezes" e "[Zonha, o criminoso] deu um tiro no olho dele. [...] Ele ficou lá meio pendurado, com um furo na cabeça."
Como professor, afirmo que a questão é muito complicada. Esse problema se parece um pouco com as cenas de violência e nudez gratuita das famigeradas novelas e que são transmitidas e assistidas por adultos e crianças. Pelos trechos do livro, exposto acima, volto a afirmar que o problema é bem mais sério, pois o tema violência é muito traumatizante em nossa sociedade. O nosso país é um dos mais violentos do mundo e isso significa que não há necessidade de se trabalhar com relatos de violência em nossos livros didáticos, se a cada esquina ela está bem presente.
Acho uma grande falácia essa coisa de mostrar algo que já está visível em nosso meio, como por exemplo, o comportamento homossexual, o estuprador, o assassino, a prostituta para que a sociedade reflita a respeito, mas não quero, também, mascarar a realidade; mostrar apenas coisas belas em detrimento dos reais problemas. O problema aqui é a violência gratuita. No Romantismo, por exemplo, uma cena de sexo não admitia os pormenores do ato, e mesmo assim causava a mesma catarse. Já no Realismo, os pormenores são essenciais, já que esta última escola representava muito mais uma espécie de perseguição política e comportamental. Voltando ao problema, pra mim, o educador que escolheu esse livro para ser trabalhado em sala de aula se esqueceu de uma coisa importante: não adianta nada você trazer pra sala de aula uma possível realidade assustadora, com palavras chulas e violentas se o educador e os alunos não estiverem preparados e conscientes do que estão fazendo. Eu ficaria bem tranqüilo se o nível de nossa educação já estivesse num patamar de primeiro mundo, aí, talvez, esse tipo de material não ameaçasse tanto o comportamento de nossos jovens.
Não sei se fui compreendido. Não estou querendo dizer que depois desse livro as crianças vão sair por ai tentando estuprar umas as outras, mas só acho que esse tipo de material foi escolhido por outras questões – apadrinhamento, descuido dos educadores, com outros propósitos maléficos – mas menos com o objetivo de reflexão.
Por que se trabalhar a violência com palavras tão chulas e assustadoras? Os nossos jornais estampam todos os dias notícias de crimes dos mais diversos, publicam imagens das mais terríveis que não precisam de palavras para serem bem compreendidas, portanto os nossos alunos não precisam de mais violência, principalmente as vindas do governo – para refletirem sobre a realidade. O que todos nós queremos é que o governo nos atenda com cultura ou, então, nos dê o caminho de como conquistá-la, pois nada nesse mundo vem de graça.
Que frases como essas, "arriou as calças dela, levantou a blusa e comeu ela duas vezes" e "[Zonha, o criminoso] deu um tiro no olho dele. [...] Ele ficou lá meio pendurado, com um furo na cabeça.", fiquem apenas nesse livro para que os interessados comprem. Nossos alunos não precisam desse tipo vocabulário e muito menos dessa atmosfera já traumatizante do dia-a-dia.

quarta-feira, 11 de agosto de 2010

Espaço Ponto de Vista: A frouxidão de nossas Forças Legais


Gostaria de comentar algumas práticas incompreensíveis, pra não dizer um tremendo desrespeito ao Estado de Direito e a segurança pública, relativas à frouxidão de nosso sistema penal. No último domingo, assistia eu ao programa ‘Fantástico’ da Rede Globo de televisão quando foram mostradas as imagens do bandido Elizeu Felício de Souza, o Zeu, – o assassino de Tim Lopes – armado até os dentes no complexo do Alemão. O bandido foi condenado a vinte e três anos de prisão, mas graças à concessão do regime semiaberto, concedido após o cumprimento de cinco anos e vinte e cinco dias de bom comportamento, o elemento conseguiu ‘sair’ da prisão pelas portas da frente, numa prática cada vez mais freqüente, principalmente quando das concessões de indultos de datas comemorativas.
Mas agora aqui vale uma reflexão. O Estado democrático de direito assegura a todos os cidadãos a igualdade de direitos e a garantia, com raríssimas exceções, à vida, à liberdade e a igualdade. E essas prerrogativas são tão bem enfáticas que algumas, a meu ver, extrapolam o bom senso e a razoabilidade, como exemplo, cito o direito à liberdade condicional concedido ao bandido Zeu, um assassino com altíssimo grau de periculosidade. É um absurdo que pessoas como o torturador e assassino de Tim Lopes recebam tratamento igualitário a um simples ladrão de carro ou a um assaltante a mão armada. E os indultos concedidos aos detentos? No último domingo foi o dia dos pais e acredito que muitos marginais não regressaram ao presídio para prosseguirem com as suas penas, portanto são benefícios que terão quer ser rapidamente modificados e ajustados à realidade brasileira para assim evitarem que pessoas, pra não dizer monstros, fiquem a soltas por aí fazendo o que bem entenderem. Foi assim com Zeu e é assim com muitos outros.
Ainda na mesma reportagem, um juiz, não lembro bem, disse que muitos profissionais que trabalham na análise comportamental dos detentos sofrem pressões, até ameaças de morte, para deferirem o regime de soltura dos marginais... É um absurdo! Parece mesmo que os bandidos mandam mais que os poderes constituídos.
Bem, diante disso é dever da sociedade brasileira cobrar de nossos representantes as modificações necessárias em nosso sistema penal para que absurdos como a soltura de Zeu não aconteçam mais, mesmo que para isso, questões como o direito à vida, à liberdade e a igualdade sejam profundamente meditados, não com o ranço do regime militar, mas com inteligência e lucidez em conformidade com a realidade de nossa sociedade. O assassino de Tim Lopes tem o mesmo direito à liberdade que eu e você? O traficante Zeu é tão igual em direitos como você, chefe de família? Lembre-se que, antes de qualquer posicionamento, ele, o traficante, optou pelo crime. E a vida? Assunto mais delicado. O torturador e assassino de Tim Lopes tem também direito à vida? Lembre-se que o bandido e sua corja não toleraram a vida do jornalista e de muitos outros não conhecidos. São questões a serem discutidas e meditadas por toda a nossa sociedade para que medidas mais arrojadas sejam implementadas com o fito de tratar com severidade e aplicação de verdadeiro corretivo àqueles que estão muito à margem da sociedade, os marginais de toda a espécie.
Ao fim da reportagem, o secretário de segurança pública do Rio de Janeiro, José Mariano Beltrame, afirmou que está fazendo o possível para capturar o bandido, foragido desde 2007, mas reconheceu que não é fácil agir no complexo de favelas mais temido do Rio de Janeiro, o complexo do alemão. Segundo Beltrame, “A gente acompanha e procura prender essas pessoas fora daquele contexto, porque dentro daquele contexto são ações muito complexas. Vidas de inocentes correm sério risco de serem debeladas em função de uma ação da polícia lá”.
Ora secretário, eu particularmente tenho muito respeito pela sua história em outras passagens como articulador da segurança pública, mas acho eu na minha santa ignorância que um bandido não iria ficar a três anos fincado dentro de uma favela, portanto se a polícia não consegue agir dentro do complexo do alemão, quem é que agirá? Ações da polícia, secretário, não significam apenas tiros e incursões. Cadê o serviço de inteligência? Cadê os policiais disfarçados dentro da favela?
A minha última esperança são as Unidades de Polícia Pacificadora (UPP). Nome bonito que significa ‘contenção da selvageria’ (o cacete deve comer lá dentro). Talvez, assim, o complexo do alemão seja ‘dominado’ pelas forças legais e o tal bandido Zeu seja preso. Tenho certeza que até a copa de 2014 tudo esteja resolvido, pois o que está em jogo não é a nossa segurança, mas sim a segurança do gringo endinheirado.

terça-feira, 10 de agosto de 2010

Espaço Momentos Antológicos: Jorge Amado, 'Dona Flor e Seus Dois Maridos'


Os Momentos antológicos da literatura brasileira significam todas aquelas passagens que marcaram uma obra literária. Para inaugurar esse novo espaço em “O Botequim”, separei dois trechos memoráveis da obra ‘Dona Flor e seus Dois Maridos, de Jorge Amado; e se trata logo dos capítulos 1 e 2, a morte do malandro Vadinho em pleno carnaval baiano, vestido de baiana e com uma imensa mandioca por debaixo das pernas! Vale a pena conferir é maravilhoso!

Capítulo 1

Vadinho, o primeiro marido de dona Flor, morreu num domingo de carnaval, pela manhã, quando, fantasiado de baiana, sambava num bloco,
na maior animação, no largo dois de julho, não longe de sua casa. Não
pertencia ao bloco, acabara de nele misturar-se, em companhia de mais
quatro amigos, todos com traje de baiana, e vinham de um bar no cabeça onde o uísque correra farto à custa de um certo Moysés Alves, fazendeiro de cacau, rico e perdulário.
O bloco conduzia uma pequena e afinada orquestra de violões e
flautas; ao cavaquinho, Carlinhos Mascarenhas, magricela celebrado nos
castelos, ah! um cavaquinho divino. Vestiam-se os rapazes de ciganos e
as moças de camponesas húngaras ou romenas; jamais, porém, húngara ou
romena ou mesmo búlgara ou eslovaca rebolou como rebolavam elas,
cabrochas na flor da idade e da faceirice.
Vadinho, o mais animado de todos, ao ver o bloco despontar na
esquina e ao ouvir o ponteado do esquelético Mascarenhas no cavaquinho
sublime, adiantou-se rápido, postou-se ante a romena carregada na cor,
uma grandona, monumental como uma igreja - e era a igreja de São
Francisco, pois se cobria com um desparrame de lantejoula doirada -,
anunciou:
- Lá vou eu, minha russa do tororó...
O cigano Mascarenhas, também ele gastando vidrilhos e miçangas,
festivas argolas penduradas nas orelhas, apurou no cavaquinho, as
flautas e os violões gemeram, Vadinho caiu no samba com aquele exemplar
entusiasmo, característico de tudo quanto fazia, exceto trabalhar.
rodopiava em meio ao bloco, sapateava em frente à mulata, avançava para
ela em floreios e umbigadas, quando, de súbito, soltou uma espécie de
ronco surdo, vacilou nas pernas, adernou de um lado, rolou no chão,
botando uma baba amarela pela boca onde o esgar da morte não conseguia
apagar de todo o satisfeito sorriso do folião definitivo que ele fora.
Os amigos ainda pensaram tratar-se de cachaça, não os uísques do
fazendeiro: não seriam aquelas quatro ou cinco doses capazes de possuir
bebedor da classe de Vadinho; porém toda a cachaça acumulada desde a
véspera ao meio-dia quando oficialmente inauguraram o carnaval no bar
triunfo, na praça municipal, subindo toda ela de uma vez e derrubando-o
adormecido. Mas a mulata grandona não se deixou enganar: enfermeira de
profissão estava acostumada com a morte, freqüentava-a diariamente no
hospital. Não, porém, tão íntima a ponto de dar-lhe umbigadas, de
pinicar-lhe o olho, de sambar com ela. Curvou-se sobre Vadinho,
colocou-lhe a mão no pescoço, estremeceu, sentindo um frio no ventre e
na espinha:
- Tá morto, meu deus!
Outros tocaram também o corpo do moço, tomaram-lhe do pulso,
suspenderam-lhe a cabeça de melenas loiras, buscaram-lhe o palpitar do
coração. Nada obtiveram, era sem jeito. Vadinho desertara para sempre do
carnaval da Bahia.


Capítulo 2

Foi um rebuliço no bloco e na rua, um corre-corre pelas redondezas, um deus- nos-acuda a sacudir os carnavalescos - e ainda por cima a escandalosa Anete, professorinha romântica e histérica, aproveitou a boa oportunidade para um chilique, com pequenos gritos agudos e ameaças de desmaio. Tôda aquela representação em honra do dengoso Carlinhos Mascarenhas, por quem suspirava a melindrosa de faniquito fácil - dizendo-se ela própria ultra-sensível, arrepiando-se como uma gata quando êle dedilhava o cavaquinho. Cavaquinho agora silencioso, pendendo inútil das mãos do artista, como se Vadinho houvesse levado consigo para o outro mundo seus derradeiros acordes. Veio gente correndo de todos os lados, logo a notícia circulou pelas imediações, chegou a São Pedro, à Avenida Sete, ao Campo Grande, arrebanhando curiosos. Em tôrno ao cadáver reunia-se uma pequena multidão a acotovelar- se em comentários. Um médico residente em Sodré foi requisitado e um guarda-de-trânsito sacou de um apito e nele soprava sem parar como a advertir a cidade inteira, a todo o Carnaval, do fim de Vadinho. Pois se é Vadinho, coitadinho dêle !", constatou um careta, com sua mascara de meia, perdida a animação. Todos reconheciam o morto, era largamente popular, com sua alegria esfuziante, seu bigodinho recortado, sua altivez de malandro, benquisto sobretudo nos lugares onde se bebia, jogava, e farreava; e ali, tão perto de sua residência, não havia quem não o identificasse. Outro mascarado, êste vestido de aniagem e coberto com uma cabeçorra de urso, varou o cerrado grupo, conseguiu aproximar-se e ver. Arrancou a máscara deixando exposta uma cara aflita, de bigodes caídos e crânio careca e murmurou:
- Vadinho, meu irmãozinho, que foi que te fizeram?
"Que foi que deu nêle, de que morreu?" perguntavam-se uns aos outros, e havia quem respondesse: "foi cachaça", numa explicação por demais fácil para tão inesperada morte. Uma velha curvada parou também, deu sua olhadela, constatou:
- Tão moderno ainda, por que morrer tão môço?
Perguntas e respostas cruzavam-se, enquanto o médico colocava o ouvido sôbre o peito de Vadinho, numa constatação final e inútil. "Estava sambando, numa animação retada, e sem avisar nada a ninguém, caiu de lado já todo cheio da morte" - explicou um dos quatro amigos, curado por completo da cachaça, de súbito sóbrio e comovido, meio sem jeito nas roupas femininas de baiana, as faces vermelhas de carmim, fundas olheiras negras, traçadas com cortiça queimada, sob os olhos. O fato de estarem fantasiados de baiana não deve levar a maliciar-se sôbre os cinco rapazes, todos eles de macheza comprovada. Vestiam-se de baianas para melhor brincar, por farsa e molecagem, e não por tendência ao efeminado, a suspeitas esquisitices. Não havia chibungo entre eles, benza Deus. Vadinho, inclusive, amarrara sob a anágua branca e engomada, enorme raiz de mandioca e, a cada passo, suspendia as saias e exibia o troféu descomunal e pornográfico fazendo as mulheres esconderem nas mãos o rosto e o riso, com maliciosa vergonha. Agora a raiz pendia abandonada sôbre a coxa descoberta e não fazia ninguém rir. Um dos amigos veio e a desatou da cintura de Vadinho. Mas nem assim o defunto ficou decente e recatado, era um morto de Carnaval e não exibia sequer sangue de bala ou de facada a escorrer-lhe do peito, capaz de resgatar seu ar de mascarado. Dona Flor, precedida, é claro, por dona Norma a dar ordens e a abrir caminho, chegou quase ao mesmo tempo que a polícia. Quando despontou na esquina, apoiada nos braços solidários das comadres, todos adivinharam a viúva, pois vinha suspirando e gemendo, sem tentar controlar os soluços, num pranto desfeito. Ao demais, trajava o robe caseiro e bastante usado com que cuidava do asseio do lar, calçava chinelas cara-de- gato e ainda estava despenteada. Mesmo assim era bonita, agradável de ver- se: pequena e rechonchuda, de uma gordura sem banhas, a côr bronzeada de cabo-verde, os lisos cabelos tão negros a ponto de parecerem azulados, olhos de requebro e os lábios grossos um tanto abertos sôbre os dentes alvos. Apetitosa, como costumava classificá-la o próprio Vadinho em seus dias de ternura, raros talvez, porém inesquecíveis. Quem sabe, devido às atividades culinárias da espôsa, nesses idílios Vadinho dizia-lhe "meu manue de milho verde, meu acarajé cheiroso, minha franguinha gorda", e tais comparações gastronômicas davam justa idéia de certo encanto sensual e caseiro de dona Flor a esconder-se sob uma natureza tranqüila e dócil. Vadinho conhecia-lhe as fraquezas e as expunha ao sol, aquela ânsia controlada de tímida, aquêle recatado desejo fazendo-se violência e mesmo incontinência ao libertar-se na cama. Quando Vadinho estava de veia, não existia ninguém mais encantador e nenhuma mulher sabia resistir-lhe. Dona Flor jamais conseguira recusar-se a seu fascínio nem mesmo se a tanto se dispunha cheia de indignação e de raiva recentes. Pois, em repetidas ocasiões, chegara a odiá-lo e a arrenegar o dia em que unira sua sorte à do boêmio. Mas andando agoniada, ao encontro da intempestiva morte de Vadinho, dona Flor ia zonza, vazia de pensamentos, de nada se recordava, nem dos momentos de densa ternura, menos ainda dos dias cruéis, de angústia e solidão, como se ao expirar ficasse o marido despojado de todos os defeitos ou como se não os houvesse possuído em "sua breve passagem por este vale de lágrimas". Foi breve sua passagem por êsse vale de lágrimas", pronunciou o respeitável professor Epaminondas Souza Pinto afetado e afobado, tentando cumprimentar a viúva, dar-lhe os pêsames, antes mesmo dela chegar junto ao corpo do marido. Dona Gisa, também professôra e até certo ponto também respeitável, conteve o açodamento do colega e conteve o riso. Se em verdade fôra breve a passagem de Vadinho pela vida – vinha de completar trinta e um anos -, para ele, dona Gisa bem o sabia, não fôra o mundo vale de lágrimas e, sim, palco de frases, engodos, embustes e pecados. Alguns dêles aflitos e confusos, sem dúvida, submetendo seu coração a árduas provas, a agonias e sobressaltos: dívidas a pagar, promissórias a descontar, avalistas a convencer, compromissos assumidos, prazos improrrogáveis, protestos e cartórios, bancos e agiotas, caras amarradas, amigos esquivando-se, sem falar nos sofrimentos físicos e morais de dona Flor. Porque, considerava dona Gisa em seu português arrevesado - era vagamente norte-americana naturalizara-se e se sentia brasileira mas o diabo da língua ah! não conseguia dominá-la -, se houvera lágrimas na breve passagem de Vadinho pela vida, elas tinham sido choradas por dona Flor e foram muitas, davam de sobra para o casal. Diante de tão súbita morte, dona Gisa não pensava em Vadinho senão com saudade: era-lhe simpático, apesar de tudo; possuía um lado gentil e cativante. Nem por isso, no entanto, nem por ele encontrar-se ali, no Largo Dois de Julho, morto, estendido na rua, vestido de baiana, iria ela de repente santificá-lo, torcer a realidade, inventar outro Vadinho feito de um só pedaço. Assim explicou a dona Norma, sua vizinha e íntima, mas não obteve da parceira o esperado apoio. Dona Norma muitas vêzes dissera as últimas a Vadinho, brigava com ele, pregava-lhe sermões monumentais, chegara um dia a ameaçá-lo com a polícia. Naquela hora derradeira e aflita, porém, não desejava comentar as predominantes e desagradáveis facêtas do finado, queria apenas gabar seus lados bons, sua gentileza natural, sua solidariedade sempre pronta a manifestar-se, sua lealdade para com os amigos, sua indiscutivel generosidade (sobretudo se a praticava com o dinheiro alheio), sua irresponsável e infinita alegria de viver. Aliás, tão ocupada em acompanhar e socorrer dona Flor, nem tinha ouvidos para Dona Gisa com sua dura verdade. Dona Gisa era assim: a verdade acima de tudo, por vêzes a ponto de fazê-la parecer áspera e inflexível; talvez numa atitude de defesa contra sua boa fé, pois era crédula ao absurdo e confiava em todo mundo. Não, não relembrava os malfeitos de Vadinho para criticá-lo ou condená-lo, gostava dêle e com freqüencia perdiam-se os dois em longas prosas, dona Gisa interessada em apreender a psicologia do submundo onde Vadinho se movimentava, ele a contar-lhe casos e a espiar-lhe no decote do vestido o nascer dos seios pujantes e sardentos. Talvez dona Gisa o entendesse melhor que dona Norma, mas, ao contrário da outra, não lhe descontava sequer um defeito, não ia mentir só por que ele morrera. Nem a si própria dona Gisa mentia, a não ser quando isso se fazia indispensável. E não era o caso, evidentemente. Dona Flor atravessava o povo no rastro de dona Norma a abrir caminho com os cotovelos e com sua extensa popularidade:
- Vai, arreda minha gente, deixa a pobre passar . . .
Lá estava Vadinho no chão de paralelepípedos, a bôca sorrindo, todo branco e loiro, todo cheio de paz e de inocência. Dona Flor ficou um instante parada, a contemplá-lo como se demorasse a reconhecer o marido ou talvez, mais provàvelmente, a aceitar o fato, agora indiscutível, de sua morte. Mas foi só um instante. Com um berro arrancado do fundo das entranhas, atirou-se sôbre Vadinho, agarrou-se ao corpo imóvel, a beijar-lhe os cabelos, o rosto pintado de carmim, os olhos abertos, o atrevido bigode, a bôca morta, para sempre morta.

quinta-feira, 5 de agosto de 2010

Espaço Ponto de Vista: O debate dos Presidenciáveis


A Rede Bandeirantes de televisão promoverá na noite desta quinta-feira o primeiro debate entre os candidatos à Presidência da República. Após um curto corpo-a-corpo pelas principais capitais do país, os candidatos, agora, têm a missão de convencer os eleitores, através da TV, esclarecendo seus programas de governo e, principalmente, promoverão aquela velha baixaria de acusações.
Quanto aos três principais candidatos – Dilma Rousseff, José Serra e Marina Silva –, gostaria de tecer algumas considerações, pois ao meu olhar, nenhum desses candidatos inspira a confiança mínima para dirigirem o Brasil.
A candidata Dilma Rousseff representa a continuação de tudo o que foi visto no governo Lula: mensalões, escândalos dos mais variados, corrupção por todos os lados, bolsas diversas para os ‘carentes’ (ou compra de votos?) e, principalmente, a omissão do Chefe do Executivo. Na minha opinião, o que mais marcou os oito anos de governo Lula foi a omissão do presidente nos principais escândalos envolvendo os seus comparsas, José Dirceu, José Genuíno..., e assim por diante. E sempre o nosso presidente procurou preservar a sua imagem de pobre e honesto, marcas de sua elegibilidade, mesmo que as circunstâncias estampassem claramente o seu envolvimento nos escândalos. Além de tudo isso, a candidata Dilma Rousseff tem um estilo próprio de se portar, a sua arrogância; característica de quem já matou – tendo como causa o já batido militarismo – para conseguir o privilégio do poder. A luta foi sua ou foi pelo Brasil? Eis a pergunta que não quer calar.
Já o candidato do PSDB, José Serra, parece, mais uma vez, que ficará a ver navios. Os principais meios de comunicação, desde cedo, já estão manipulando a opinião pública e dando como certa a vitória de Dilma. José Serra representa o conservadorismo político que ficou ausente nesses oitos anos de governo do PT, assim quer virar a mesa e fazer com que seus asseclas voltem a tomar conta da direção do país. Sua presença no Palácio da Alvorada beneficiaria muito mais os grandes empresários do país em detrimento aos interesses do povo em geral. O desemprego, marcas do governo FHC, quando da criação do Plano Real, restaria ainda mais fortalecido, pois no jogo com a economia do país – e economia significa interesses do setor privado – José Serra e seu ministro dariam ampla preferência aos interesses alheios alegando o equilíbrio de toda a economia. E quem é que entende de economia? Poucos. Para o povão, se a moeda não desvalorizar e se os preços do mercado estiverem os mesmos, como no mês passado, está ótimo, como aconteceu no Plano Real. Portanto, José Serra e o PSDB têm força política, mas não é a pessoa certa – e nem o partido – para equilibrar os interesses do povo e dos empresários.
E por fim, Marina Silva do PV ganha disparada em simpatia, mas perde contundente no mal vestir (imagem de pobre?)... Brincadeiras pra depois, Marina Silva, como o próprio sobrenome, significa a representação do genérico, do comum, do povão. Tem bons projetos de governo, principalmente os ambientais, mas não tem força política, muito menos experiência nos mistérios da governança. Sua presença no Palácio da Alvorada poderia significar uma grave desarmonia política no Congresso e, talvez, tornaria seu governo muito mais difícil. Talvez fosse a candidata ideal do povo, como nos deu a falsa ilusão a do presidente Lula, mas não joga mais no PT, agora a candidata é do PV, um partido muito modesto e que não tem o apoio das principais lideranças do país. Portanto Marina Silva, mulher trabalhadora, que até os seus quinze anos era analfabeta, neste momento, não representa os interesses do povo brasileiro, pois o seu partido (ou governo? Eis a grande questão?) não distribui dinheiro por aí, não fala gratuitamente em bucho cheio, pois sabe que o problema do país está muito além da esmola, está na falta de vergonha.
Pra finalizar, vocês devem estar se perguntando, mas qual é o candidato ideal pra esse sujeito? Respondo com um ‘não sei’ bem grande, pois por tudo o que nos foi fornecido, na minha modesta opinião, eu sei bem quem não deve receber a faixa presidencial. É o preço da democracia. É o preço do atraso. É o preço de nossa eterna colônia.

- Por Franco Aldo, Rio, 05 de agosto de 2010 -.

quarta-feira, 4 de agosto de 2010

Espaço Literatura (Conto): O Aposentado


Quando se passa dos cinqüenta, as coisas tendem sempre a piorar. Uma dorzinha a mais pra dificultar, os cabelos brancos pra disfarçar, os gastos com remédios caríssimos, a mesada recebida pelo INSS e o mais triste de todos, o tratamento marginal indiferente recebido pela sociedade. E por falar em mau tratamento, começa desde a hora do despertar – pois nós idosos dormimos pouco – e já existirá alguém pra reclamar ou se for boa praça criticar: ‘Por que velho acorda tão cedo!’, ‘Lá vai aquele velho chato varrer a calçada’, ‘Ô menino, tá com mania de velho, acordando tão cedo!’. Depois vêm as outras horas do dia. Na hora do almoço, por exemplo, a comida tem que ser especial, sem sal, sem gordura, muita salada. Aquela comidinha chata, rica em nutrientes que ninguém gosta de comer e quem não come, também não gosta de preparar. Ainda no seio familiar, tem aqueles momentos em que o velho põe em prática sua experiência de vida, prevendo todas as situações que antes já passara. Se for bom, consente com um sorriso de dentes falsos. Se for problema na certa, se intromete no assunto e toma aquela patada do filho, da filha, do neto... Vida de velho é assim mesmo. Todos nos tratam como se fôssemos um traste velho. Nem os nossos filhos se interessam mais. Querem é viver as suas vidas, gozá-las como nós gozamos as nossas quando jovens. Velhice pro jovem é a morte de tudo; da alegria, da beleza, da saúde, da lucidez. Alguns pontos até concordo, outros, porém, não. Velho tem que ter direito aos poucos dias de vida que ainda lhe restam. Tem o direito de entrar nos coletivos sem mostrar a carteira de idoso. Por falar nisso, uma vez, eu estava sentado num coletivo, quando o motorista parou num ponto. Subiu um senhor que aparentava ter uns, digamos, noventa anos. Quase não conseguia andar. O motorista, porém, não deixou o pobre velho seguir viagem, simplesmente porque não tinha a maldita carteirinha! Coisa que não prova nada. Onde já se viu, papel novo com poucos dias de tintura e fabricação ter mais valor que a pele murcha e acabada de um velho com mais de cinqüenta anos!
O velho fica mais velho quando se aposenta. Êta palavrinha definhadora! Quando se é ainda jovem, já aposentado, procura-se no sujeito algo que denuncie algumas décadas a mais. Alguém preconceituoso dirá: ‘Nossa..., você viu aquele velho com cara de novo... Inteirinho!’ Mas quando se faz cinqüenta, e se já for aposentado, só faltará a lápide para se sepultar de vez. Se ainda trabalhar, será motivo de reclamação de muita gente. O colega de escritório dirá: ‘Não liga não, ele já está gagá’, ou então: ‘Seu Claudecir tá demorando muito, ô tranqueira de velho!’ Assim prosseguirá o velho, guardando para si a sapiência dos anos, os mistérios das enrascadas da vida, do amor, da política, a experiência no contato com as pessoas, que de tão frustrada, se convence que não convence a mais ninguém. E pra quê tudo isso? Pra nada! Ninguém quer saber de história de velho, aliás, os únicos ainda que se animam a escutá-las são os netinhos de pequena idade para depois poderem desfrutar das balas e doces conseguidos do dinheiro dado. O jovem não escuta mais aos velhos, como não escuta, também, os discos de vinil encalhados no quarto da bagunça.
O sofrimento não pára por aí. Na fila do ônibus, por exemplo, se a porta da frente for aberta antes da de trás, onde entram os passageiros pagantes, ouvirá sempre alguém dizer, mesmo se for com os olhos: ‘Mas já acabou os assentos, tudo culpa desses velhos inúteis!’ Posso até estar exagerando, mas tenho razão, pois jogo no mesmo time, e só sou respeitado, quando não dou trabalho pra ninguém.
Hoje em dia a preocupação com o idoso é constante. Será mesmo? Nos bancos, existe aquele caixa preferencial, um apenas. Bom? A fila desse caixa fica maior do que a do caixa para os jovens. É muito velho na fila – Tenho lá minhas dúvidas quando se falam que o Brasil é um país de jovens –. E o que mudou em tudo isso? Nada. Apenas ficamos mais e mais discriminados. Preferiria encarar a fila dos normais, pelo menos ninguém, talvez, percebesse a presença de um velho de pernas cheias de varizes a aguardar a vez.
E nos supermercados? Outro dia fui até ao de esquina comprar chá de erva-doce. Adoro chá – coisa de velho? Que seja! – Quando fui pagar no caixa exclusivo, que dizia com letras bem grandes “CAIXA PREFERENCIAL PARA IDOSOS E GESTANTES”, um sujeito moço de uns vinte e tantos estava despejando todo o seu carrinho cheio no balcão do caixa. Iria demorar alguns e lentos minutos. Fiquei na fila para provocar alguma reação de alguém, e nada. A caixa, mulher gorda e bigoduda, olhava somente as compras com olhos de peixe-morto – digitava os preços e pensava na novela das oito –. Quanto a mim, parecia invisível; eu e as minhas caixinhas de chá. Cena lamentável. Mas para o meu consolo, o caixa ao lado, caixa de dez volumes, recebia de uma mulher um carrinho lotado de tranqueiras de perfumaria. Fiquei um pouco mais satisfeito, pois percebi que o supermercado era indiferente não somente com os idosos, mas a tudo. Com custo chegou a minha vez de pagar; perna já inchada e cansada. A caixa com olhos de peixe-morto continuava de cabeça baixa, uma vez ou outra perguntava à outra caixa sobre alguma fofoca esquecida. E eu ali com minhas caixinhas de chá...
Depois dos cinqüenta, muita coisa de ruim acontece com você. Muita gente pensa que você tá morto, não serve mais pra nada. É aí que você surpreende a todos eles!...
Esses rápidos pensamentos se esgotaram antes mesmo que seu Claudecir conseguisse chegar à boca do caixa para receber o dinheiro de sua aposentadoria. Foi aí que se sentiu mais vivo e mais jovem do que nunca; passou uma morena de saia justa e transparente, onde se via a minúscula calcinha perdida dentro de uma imensidão obscura. Seu Claudecir estufou o peito e gritou pros funcionários do banco: – “Vocês não tem respeito com os mais velhos! Nós não estamos mortos não!”.



Contos de Botequim.(Silfra Doval, Taubaté, 16 de julho de 2005).