Faço 38 anos nesta próxima segunda. Acredito que, a cada ano conquistado, muitas coisas vem em nossas mentes, principalmente quanto ao fato daquela velha preocupação de se achar velho, isto é, aquela sensação de que as coisas estão mudando e que você continua estático, indiferente às novas sensações, às novas músicas, aos novos estilos comportamentais. É o conservadorismo que, a cada ano, vem tomando conta do ser, do pensamento, do modo de se vestir, de dançar, de ver as coisas, mas acho que isto não seja algo de todo ruim, apenas uma maneira inconsciente de superação, de crescimento. Portanto, o amadurecimento é algo que se conquista não só com a cultura de novos livros, de novos contos ou romances, mas, principalmente, com o enfrentamento dos desafios da vida.
Assim, nessa segunda-feira espero comemorar mais um ano de experiência com a mesma energia e empolgação da adolescência, mas com os pés no chão e a cabeça cada vez mais tranqüila. Essa forma de comportamento, acredito eu, seja a ideal para se buscar o caminho da felicidade, pois a experiência e a vontade de viver se unem numa confluência única que fazem do sujeito se dotar de uma magia única e irresistível, a magia da personalidade.
Parabéns a todos aqueles aniversariantes que comemoram mais um ano de vida sem a preocupação das rugas no espelho, mas sim com a preocupação de um possível aprendizado não compreendido.
Sejam Bem-Vindos!
O Botequim é um espaço democrático e opinativo sobre os mais diversos assuntos, envolvendo a sociedade brasileira e o mundo.
Sejam Bem-vindos!
Sejam Bem-vindos!
segunda-feira, 30 de agosto de 2010
quinta-feira, 26 de agosto de 2010
Espaço Curtas: As queimadas por todo o Brasil
Estou em Mato Grosso desde o dia 19/08, vim trabalhar e retornarei ao Rio de janeiro apenas no dia 31/08. O que mais me impressionou ao descer do avião em Cuiabá foi a visão fumacenta de toda a cidade causada pelas queimadas das redondezas, mas até então não fazia idéia da seriedade do problema. Segui viagem de ônibus até Vilhena, em Rondônia, aí pude perceber a gravidade da situação. Ao longo da BR que liga Cuiabá no Mato Grosso a Vilhena em Rondônia, os focos de queimadas são assustadores. Muita fumaça, pouca visibilidade na estrada tem provocado muitos acidentes com vítimas fatais. Também, nos hospitais, o problema se agrava, pois as maiores vítimas da pouca umidade são as crianças e os idosos. A impressão que dá é que foram propositalmente provocados, mas a pouca umidade do ar, talvez, seja o verdadeiro responsável, pois já faz tempo que não chove por aqui.
Ao consultar as notícias dos principais sites, vejo que a pouca umidade está em todo o Brasil.
Vamos torcer para que esse estado de secura passe logo e que as pessoas passem a se preocupar mais com a segurança de nossas matas.
Ao consultar as notícias dos principais sites, vejo que a pouca umidade está em todo o Brasil.
Vamos torcer para que esse estado de secura passe logo e que as pessoas passem a se preocupar mais com a segurança de nossas matas.
quarta-feira, 18 de agosto de 2010
Espaço Conto: Nos Cantos do Rio

O menino não teria mais de oito anos, fumava, bebia, discutia como gente grande. Do seu universo, era um ser estranho, não era criança, não era adulto. Sabia já como era o sexo, mas não tinha, ainda, o porte físico necessário, nem a criatividade para suportá-lo. Os hábitos eram de gente acostumada ao sofrimento, a pele e o sorriso escondiam um enigma sombrio. Coisa diferente, triste, ameaçadora... Que coitado! Foi a minha observação que fiz a respeito de Boa-vida, criança de rua nascida na rua, cujo apelido refletia certo escárnio, um deboche de quem vivia de baixo de uma marquise na Central do Brasil.
Boa-vida vivia do dia, da ação, da esperteza, não era ladrão não! Vendia balas, doces, era flanelinha, conselheiro, proseador, engraxate, jornaleiro, office-boy, guia turístico e até se intitulava professor. Sim, professor dos menores, aqueles, que como ele, já estavam abandonados na rua, sem família, sem carinho, sem ninguém. Tudo fruto do descaso, do esquecimento.
Pensamentos distantes de Goro, outro menino de rua, com seus oito anos, amigo de Boa-vida:
– Estou sentindo tanto frio!... E tenho também fome!... Que coisa..., outro dia uma mulher de saia grande que se dizia ser testemunha de Jeová me disse que seremos salvos e que iremos pra outra vida, não teremos mais fome nem frio, seremos amados e confortados. E que eu estarei ao lado do rei. Não compreendi muito bem, e na verdade, ainda não entendi. Estou a sofrer já faz tempo e nada me acontece. Hoje tive que bater a carteira de um otário grande e gordo, de bolso cheio e ar arrogante. Dizem que não é justo, mas eu me pergunto, por que muita gente tem casa boa e família, enquanto eu sofro e me ferro? Isso é justo? O que foi que fiz pra merecer isso? Desde menor e com os meus sete, já perdi a noção de grande e pequeno, e dizem por aí que sou ainda de menor, mas e o meu cigarro? Minha puta que me ama não fala nada disso. Diz que sou é homem e dos mais machos que existem!
No trânsito infernal do fim de expediente, pelas redondezas da Central, lá estavam Boa-vida e Goro sentados num banco imundo de praça, fumando um pito de cigarro. O olhar vago dos dois e a falta de perspectiva de futuro confluíam para uma imaginação perturbada, doentia e sofrida. Ambos observavam a multidão que iam e vinham de todos os lados e pra todas as direções. O pensamento de Boa-vida fluía por nuvens dispersas a enormes alturas. Imaginava como seria uma vida longe das ruas. Via-se imerso num mundo de conforto e segurança. Via-se, ao acordar, num quarto limpo e só seu, receber o sorriso e o afago de uma mãe; uma mãe sem rosto, presente apenas pelo vulto e pelos carinhos recebidos, pois desde muito cedo, tinha sido deixado na rua com a negra Zélia que o criou com a educação dada pela rua e o preparou para os desafios dos menos afortunados. Algo em Boa-vida, ainda, respirava..., era a alma carente de criança que reclamava seu contento, pois quando se é criança, mesmo já adulto precoce, sempre existirá algum indício que denuncie a fragilidade infantil.
Goro, pelo contrário, apesar de tanto sofrimento, não gostava muito de pensar em coisas boas, até porque nada era bom em sua vida - Faz ou não faz sentido?... Moleque realista, mais velho que Boa-vida, apenas dois anos. Aparentava ter lá seus dez anos bem vividos, e muito bem vividos, no sentido mais desafiador e mais indigno da condição humana. Aos cinco anos fugira de casa. Seu pai, um homem bruto e alcoólatra, espancava-o constantemente. Sua mãe, mulher ignorante e parideira, também não lhe dava a atenção necessária e sempre concordava com as decisões do marido. Resolvera, então, fugir. Pra bem longe!
Goro, de iniciou, instalou-se na Praça da Bandeira, mas logo foi tocado de lá por excesso de moradores. Seguiu então pra Central do Brasil, a velha estação de trens da cidade maravilhosa. Foi pelas adjacências da central, em alguma marquise de loja, que conheceu o Boa-vida e se tornaram grandes amigos.
Naquele momento, enquanto fumavam o já quase extinto pito de cigarro, foram interrompidos de seus transes e enxotados por um velho mendigo que reclamava seu direito naquela área. Não criaram caso, até porque Goro e Boa-vida compreendiam muito bem aquilo. O velho estava no seu direito. A lei das ruas protegia-o de qualquer invasão; um código de ética que por sinal muito bem respeitado.
O crepúsculo anunciava noite quente e movimentada, bem típica dos verões cariocas. Os dois seguiram gingando pelas estreitas ruas do centro do Rio em direção à Lapa...
– O quê vamo fazer na Lapa, Boa-vida?
– Lá tenho um irmão que quer te conhecer..., o Ceroula. – respondeu o Boa-vida.
O Ceroula era um moleque já grande e conhecido como o terror da Lapa. Negro, alto e magricelo. Aparência medonha. O apelido deu-se por usar uma ceroula na cabeça como boné, adorno que o deixava ainda mais sinistro.
Também era na Lapa onde Boa-vida se afogava no sexo prematuro, movido à caninha e cola. Conheceu noutro dia uma prostituta chamada Dalva, muito forte e sarará, cara de muitos homens, e cínica feito o diabo. Era com ela que o Boa-vida se acabava em prazer e era com ela que o menino buscava orientação. Apesar da Central ser sua jurisdição, quase todos os dias deixava o Goro por lá pra se encontrar já tarde, depois dos mais esfomeados, com a suarenta e pegajosa Dalva.
A apresentação de Goro ao Ceroula deu-se. Logo os dois se entenderam e caíram dentro da caninha barata oferecida pelo cortesão. O motivo da apresentação de Goro ia muito mais que uma simples bebedeira. Sabedor das histórias de Goro por Boa-vida, Ceroula encontrara seu par perfeito para aterrorizar as redondezas da Lapa. Então, durante a pândega, o Ceroula propôs o seu primeiro convite de união com Goro. O plano seria um assalto à mercearia do Joaquim Pinto, português avaro, odiado por muitos naquela região. Boa-vida, no entanto, desconhecia as verdadeiras intenções do Ceroula, e mesmo se soubesse não meteria o bedelho naquilo que não lhe dizia respeito.
À noite sem fim cedeu lugar ao raiar de um sol feliz e empolgante. O calor, desde cedo, já fazia transpirar os corpos inquietos e sem água há semanas. Boa-vida acabara de chegar da cama de Dalva; cigarro na boca, andar gingado, olhar feliz. Foi procurar Goro para o retorno à Central. Encontrou-o deitado enrolado com uns trapos próximo à marquise de uma loja de tecidos. Cutucou-o diversas vezes e percebeu que ainda estava bêbado em demasia. Resolveu sair gingando à procura de um cigarro e uma boa prosa.
Enfim, Goro despertou. Foi procurar o Ceroula pra confirmar o plano. Boa-vida ao avistá-lo assoviou de longe e fez sinal que esperasse. Goro parou, tirou um cigarro amassado da orelha e acendeu-o.
– Até que fim! Tava durmindo que nem um porco! Tá ainda bêbado? Vamo voltar pra lá pra Central?
– Irmão, temos um serviço, hoje, com o compadi Cerôla. É sopa na crista. Depois agente vamos – Respondeu Goro.
Boa-vida não gostou muito da idéia e resolveu ficar de fora. Não era o seu feitio. Não gostava de roubar ninguém. Caso fosse necessário, talvez, o necessário pro almoço, mas não gostava dessas coisas. Aconselhou Goro a cair fora, várias vezes já tinha dito que eles não precisavam disso. Disse também que já imaginava isso por parte do Ceroula.
Boa-vida procurou fazer algo durante todo o dia. Procurou almoço na casa de Dalva e se surpreendeu pela quantidade de homens que encontrou na sórdida cama. Voltou pensativo, não decepcionado. Já conhecia tudo na vida. Não amava Dalva..., claro que não. Mas, às vezes, parava pra pensar na sua vida...
O assalto haveria de ocorrer às 22:00 horas, horário de fechamento da mercearia. Goro e Ceroula sumiram a tarde toda. Boa-vida ficou por ali mesmo, resolveu, então, procurar o que fazer; ganhar uns trocados pras refeições futuras. Foi parar num sujo e lotado supermercado popular. Apresentava-se aos consumidores como ajudante. Apesar da ação trabalhista e educada de abordar os clientes, Boa-vida recebeu muitos olhares desconfiados e preconceituosos, mesmo assim, já estava acostumado. Não delegou muita importância e acabou conseguindo umas patacas pra janta do dia.
Satisfeito com os cobres recebidos, resolveu procurar Goro. Próximos aos arcos da Lapa, Goro e Ceroula proseavam divertidamente. Boa-vida se aproximou:
– Pra que horas vai o serviço?
– Mano Boa-vida não quer ajudar? – indagou o Ceroula.
– Não, tô fora, não quero barulho.
– Cualé Boa-vida, vai deixar teu mano na onça? – agora era a vez de Goro.
Goro e Ceroula insistiram tanto que Boa-vida, mesmo sem querer, consentiu participar da ofensiva. Faria o papel de último cliente da noite. Apesar da roupa suja, que denunciava seu domicílio, Boa-vida sabia ser educado nas horas de necessidade. Era a pessoa certa pra desencadear o assalto ao português.
Já próximo das dez, Boa-vida pensou melhor e quase deu pra trás no plano. Pensou que se negasse a participar, talvez, caísse no descrédito do Ceroula. Coisa que era inadmissível nos regulamentos da rua.
Assim foi o Boa-vida entrar lá pelas dez horas na mercearia de Joaquim Pinto. O português sobressaltou-se de imediato. Conhecia de longe a presença de gente da rua.
– O que você quer aqui? – perguntou rispidamente o lusitano.
– Boa noite senhor? Estou procurando umas conservas pra sopa da minha tia. Ela prefere a marca cica, o senhor tem dessa marca aqui?
O português ainda ficou fitando Boa-vida desconfiado, na verdade, surpreendeu-se com a educação e com a pergunta de sentido do moleque.
– Acho que tenho ali no alto. Espere onde está que vou procurar – disse com sotaque inconfundível.
No momento que Joaquim Pinto deu as costas, Goro e Ceroula entraram violentamente na mercearia anunciado o assalto. Fecharam num piscar de olhos as portas e lá dentro ficaram, a sós, com o português. Assustado, Joaquim Pinto não falava nada. Estava, na verdade, já calculando o prejuízo que teria. Olhava profundamente pra cara do Goro e do Ceroula; não reconhecia o primeiro, mas o segundo já sabia que conhecia de outros carnavais.
Não houve nenhum tipo de agressão física ao português. Os três recolheram, num saco de estopa, a féria do dia, maços de cigarros, enlatados, bebidas e tudo que agradasse aos olhos. O saldo com certeza, uma boa soma. Só que na saída, motivados pelo sucesso do serviço, não perceberam a aproximação de dois seguranças de comércio, fortemente armados. Os três foram crivados de balas pelas costas. Não tiveram tempo nem de correr. Acho que nem perceberam o fracasso imediato dos seus planos.
Morreram três meninos de rua, com histórias diferentes, mas com os mesmos destinos.
Ao caso não foi dado tanta importância na cidade maravilhosa, pois a prova do crime estava com eles. Pra sociedade eram apenas ladrões sem futuro, não eram crianças. Eram monstros, assassinos, surgidos e criados na sarjeta, algo fora da realidade. Pras pessoas, são coisas que foram criadas sabe lá onde, mas que residem a cada dia e em maior número nos cantos do Rio.
(Contos de Botequim – Silfra Doval – 8 de maio de 2006).
terça-feira, 17 de agosto de 2010
Espaço Conto: As máquinas caça-níqueis

Arilson trabalhava vendendo balas e doces em porta de colégio, pois não tinha emprego fixo. O que conseguia dava pelo menos pra comprar a cesta básica do mês, quando não faltava dinheiro inexplicavelmente. Fumava, bebia, vícios de gente comum, mas quando não se tem renda fixa, pode levar a falta de comida na dispensa limitada. Apesar de ganhar pouco e sustentar os vícios humanos do mundo, Arilson não se continha quando avistava uma máquina caça níqueis, aquelas dos desprezíveis mafiosos que controlam os bolsos dos miseráveis ingênuos do Rio de Janeiro.
O bar da Elisabete, bar festeiro das sextas e sábados, as atendentes decotudas, o som nas alturas, a boa cerveja gelada e as malditas máquinas caça-níqueis fazem do ambiente o ideal para os farristas sem demais exigências.
Arilson, nas sextas ao fim de tarde, estacionava não o seu carro, mas a sua carrocinha de balas e doces e pedia a primeira da noite sem fim. Bebia, fumava, piscava para dona do estabelecimento e sem a mínima consciência jogava todo o dinheiro ganho do dia nas máquinas que diziam pagar bem. Achava ser um homem de sorte, e mais que isso, esperto e corajoso.
O exemplo de Arilson era apenas a repetição de outros tristes exemplos. Conheci, também, um cara chamado Luís caju, sujeito negro que parecia azul. Esse tal de Luís caju chegou, num sábado de festa, no bar dizendo que iria quebrar a banca, trazia consigo algo em torno de duzentos reais, muito dinheiro para quem trabalha como servente de pedreiro. Começou a jogar e a ganhar, a cada vitória triplicava as apostas e até quadruplicava com a arrogância dos espertos e, ao mesmo tempo, a inocência dos bobos. No fim, o pobre coitado após curtir momentos de esperteza e supremacia estava liso, sem um tostão no bolso, e pra piorar a situação, devendo a Elisabete.
Outro dia, chegou um sujeito estranho, cara de bandido, jogou cinqüentinha e perdeu logo. Furioso e sem dinheiro, o sujeito levantou a máquina e pôs de ponta cabeça, caíram muitas moedas, até a mais que tinha perdido. Rapou tudo e caiu fora, mas pra seu azar, Zé goela doce, cachaceiro oriundo da Cidade de Deus, reconheceu o salafrário. Noutro dia, dizem os freqüentadores do bar que presenciaram o fato, o malandro não existia mais. Numa tocaia, fora crivado de balas pelas bandas de Vargem Grande.
Existem, também, os verdadeiros espertos, aqueles que conhecem a máquina como a palma da mão, após muito dinheiro deixado. Esse era o caso de Otavinho de Assis. Sem família, já há muito tempo deixada, boêmio, trabalhador e jogador profissional calado. Conhecedor do momento certo, gastava de início seus poucos reais em bebida e música, principalmente em música; a boa e velha máquina de música, aquela dos clássicos aos mais degradantes estilos musicais. No momento certo, de desistência explícita, lá ia Otavinho, pouco dinheiro, jogava certo no da vez e lá tirava a boa soma para a noite sem fim. Muitos já esperavam a performace de Otavinho, de bocas abertas, esperavam apenas um vacilo para copiá-lo em busca dos níqueis salvadores.
Numa bela noite de dezembro, calor do Rio, a cerveja, o samba, as mulheres, a poesia cachaceira, lá estava Otavinho; camisa florida, boné branco limpinho, calça preta bem passada. A máquina de som, bem alta, tocava Vinícius. Muitos malandros com dinheiro se acotovelavam nas máquinas para especularem a aposta certa. As horas passam, as máquinas engolem, engolem, engolem muitos centavos; os bolsos esvaziam. Otavinho, cheio de cerveja, vercejava coisas belas em tom de alegria. Elisabete, mulher da noite e festeira, abria os dentes esburacados prenunciando o lucro da noite do boêmio. E lá ia o malandro, os poucos centavos era riso de alguns, já para outros, já sabendo do acontecer era motivo de aflição. Retirava o que a máquina podia pagar, quase a metade do que todos tinham perdido. Foi ai que um malandro de fora, achando que tinha sido enrolado, sacou uma arma e mandou Otavinho entregar os níqueis ganhos. Com a cabeça festeira em sua casa de alegria, Otavinho achou engraçado, mas somente tomou consciência quando era carregado pra ambulância na direção do Rocha Faria. Faleceu, duas horas depois, tomou dois tiros no peito. O malandro, pobre coitado, recolheu como um animal os níqueis do chão – que cena! –. Desprezo total pela vida alheia, coisa estranha. O saldo da morte tinha sido em torno de trezentos reais, muito pouco pela vida de uma pessoa que tinha muito a ensinar, a manha de vencer as malditas máquinas caça-níqueis.
Contos de Botequim - Silfra Doval, Taubaté, 17 de setembro de 2005 -
segunda-feira, 16 de agosto de 2010
Espaço crônica do dia: Uma vez magro, sempre magro

Passei em frente a uma loja de roupas qualquer, num shopping qualquer do Rio, e resolvi entrar para dar uma olhadinha nas calças. Procurei as que mais me agradava e resolvi vesti-las para ver se ficava bacana. Mas para minha surpresa, perdi quase uma hora só experimentando vários números, pois o meu velho nº 40 já estava há muito defasado, tendo me caído bem, para o meu espanto, o nº 44. Foi aí que caí em meditação; será que eu estou gordo?
Bem, quem me conhece sabe que sempre fui magro, mas muito magro. Na minha infância e adolescência eu era um magro de uma magreza não muito bela, pra dizer que era bem feia, mas nunca fui um magro doente, isso é a única coisa que posso me gabar, pois sempre fui de comer muito pouco, nunca a gula me excitou os ânimos, até por que nunca exigi do meu corpo atividade que justificasse repetir um prato fundo de comida, portanto quem me conhece sabe muito bem disso.
Já quando entrei no exército, passei de uma magreza inocente, fruto do pouco uso do corpo, para uma magreza mais aerodinâmica..., calma que eu vou explicar. Quero dizer que após a minha entrada nas forças armadas, passei a ter um corpo mais resistente, mais, vamos dizer, ‘duro’, fruto dos exercícios físicos diários durante os meus quase quatorze anos de caserna, portanto era um magro, como sempre fui, só que com mais vitalidade, mais resistência, mais dinamismo, isto é, aparentemente um magro esbanjando saúde e muita potência.
Agora o problema todo está nos dias de hoje. Devido a minha saída do exército, junto com o comodismo de minha nova vida ociosa e os exercícios que faço constantemente com a cevada, cheguei à conclusão que não sou o mesmo magro de sempre, uns até afirmam que estou um pouco mais gordinho. É pra ficar alegre? Olhando no espelho continuo o mesmo, mas talvez o queixo que sempre foi pequeno, agora já esteja imperceptível na minha discreta papeira. E pra piorar, muita gente diz que o problema todo é a barriga! Só que, quando me deparo com uma infâmia dessas, digo que não engordei nada e que o problema não é barriga coisa alguma, continuo o mesmo magro de sempre, só que com outro nome..., um magro redondo! Alguns engraçadinhos dizem que é redondo por causa de uma marca de cerveja! Não tem problema, pois acho que eles entenderam o que eu quis dizer.
Então, acho que engordar eu não engordei! O que aconteceu foram algumas alterações nas minhas extremidades, principalmente no quadril, pois alguns amigos meus, aqueles que me conhecem desde pequeno, dizem que o dia que eu ficar gordo, talvez seja doença ou algum trabalho muito bem feito. Portanto, quem me conhece há muito tempo não acredita na aquisição de verdadeiros quilos e na adoção de uma silueta mais larga por minha parte. O que eu digo pra eles é que não acredito em milagres, mas nessa vida tudo pode acontecer, até coisas inexplicáveis, ou melhor, coisas que tem explicação, mas muita gente não quer acreditar, até por que isso já é outra história. Então, digo pra eles que continuo o mesmo magro de sempre, só que em outra fase. A fase do magro redondo. Mas voltando às minhas calças, só sei que levei duas quarenta e quatro. E olha que ficaram justinhas!
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